
Todo ano, quando o calendário se aproxima do carnaval, uma inquietação percorre os corredores de algumas escolas cristãs. Professores se perguntam o que dizer quando o assunto inevitavelmente surgir em sala. Famílias aguardam (algumas com expectativa e outras com apreensão) a posição da escola. E, no meio disso tudo, há crianças e adolescentes que simplesmente vivem o que está ao redor, tentando entender o mundo com as ferramentas que lhes foram dadas.
A ACSI (Associação Internacional de Escolas Cristãs) entende que cada escola opera em um contexto específico, com famílias diversas e realidades regionais distintas. Mas há perguntas que, quando feitas com honestidade e à luz das Escrituras, conduzem a respostas sábias. Este artigo não vai falar o que sua escola deve fazer. Queremos ajudá-los a pensar com profundidade sobre o por quê antes do como.
ANTES DA ESTRATÉGIA, A PERGUNTA
A primeira reação diante do carnaval costuma ser operacional: Fazemos um evento alternativo? Enviamos uma carta às famílias? Essas são perguntas legítimas, mas de segundo nível. Antes, a pergunta que merece atenção é “de que forma lidamos com o carnaval para revelar a compreensão que temos de educação cristã?
Se a escola cristã existe para formar pessoas que pensam, vivem e se relacionam a partir de uma cosmovisão bíblica, então cada decisão, inclusive as que envolvem o carnaval, é uma oportunidade de encarnar essa missão. Não é um “problema a ser resolvido”, mas de um momento pedagógico a ser aproveitado.
Abraham Kuyper, teólogo e estadista holandês, expressou com precisão uma verdade que sustenta toda educação cristã consistente: “Não há um único centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’” Essa afirmação é um lema inspirador e um pressuposto educacional. Se Cristo é Senhor sobre toda a realidade, então nenhuma esfera da vida humana, incluindo a cultura, as festas e as tradições, está fora do alcance de Seu senhorio e, portanto, fora do alcance da reflexão cristã.
Isso significa que a cultura não precisa ser um território inimigo a ser evitado, nem neutro a ser ignorado. É território de Deus a ser discernido. A Escritura nos ensina que toda a criação pertence ao Senhor e que o ser humano, mesmo em sua condição caída, carrega marcas da imagem do Criador, como a criatividade.
Francis Schaeffer, em A Arte e a Bíblia, nos oferece um princípio valioso para esse exercício de discernimento: toda expressão cultural deve ser avaliada em duas dimensões: sua qualidade técnica e a mensagem que ela carrega. Reconhecer a habilidade criativa presente em uma manifestação cultural não significa endossar seus valores. O cristão aprecia o dom da criatividade como reflexo da imagem de Deus no ser humano e, ao mesmo tempo, discerne quando esse dom é colocado a serviço de uma narrativa que contradiz a verdade revelada. Como Schaeffer observou, a arte nunca é neutra, ela sempre diz algo sobre a realidade, sobre o ser humano e, em última instância, sobre Deus.
Ao mesmo tempo, Paulo nos adverte com clareza: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). A renovação da mente acontece pelo discernimento que se aprende. É exatamente aí que a escola cristã tem uma oportunidade de ouro!
ESTAMOS ENSINANDO OS ALUNOS A DISCERNIR A CULTURA OU APENAS A EVITÁ-LA?
Existe uma diferença importante entre as duas atitudes: evitar é reflexo, enquanto discernir é formação. O aluno que apenas aprende a evitar poderá enfrentar dificuldades ao tomar decisões. Já aquele que desenvolve o discernimento leva consigo um referencial capaz de orientá-lo em qualquer contexto e momento da vida.
Se o senhorio de Cristo se estende sobre toda a realidade, então a escola cristã não pode se furtar ao exercício de pensar sobre aquilo que o mundo ao redor apresenta aos seus alunos. O papel da escola é ensinar a fazer as perguntas corretas (que conduzam o aluno a um processo genuíno de análise, reflexão e resposta) que estejam sempre fundamentadas nas Escrituras.
Esse processo não é simples ou formatado. Ele precisa respeitar a capacidade intelectual e a maturidade de cada faixa etária. A criança da Educação Infantil não precisa de uma aula sobre cosmovisão, precisa experimentar a alegria de uma comunidade que celebra a bondade de Deus de maneiras concretas e acessíveis. O aluno do Ensino Fundamental está começando a perceber que existem visões de mundo diferentes; ele precisa de espaço para perguntar e de adultos que o ajudem a pensar com segurança. Já o adolescente do Ensino Médio está formando convicções próprias e precisa ser desafiado a articular o que acredita e por quê.
Schaeffer nos lembra que a pergunta fundamental diante de qualquer expressão cultural não é apenas “isso é bonito?” ou “isso me agrada?”, mas “o que isso está dizendo e se é verdadeiro?” Ensinar o aluno a fazer essa pergunta, de forma adequada à sua idade, é um presente que a educação cristã pode oferecer.
Diante disso, vale a pena que cada equipe pedagógica se pergunte: As perguntas que fazemos aos nossos alunos sobre a cultura os conduzem a pensar biblicamente, ou apenas a repetir respostas esperadas? Nosso currículo e nossas práticas ao longo do ano estão formando alunos capazes de analisar, refletir e responder com fundamento bíblico ou o discernimento cultural só aparece na semana de uma data comemorativa?
Parte do apelo do carnaval está na promessa de alegria, liberdade e celebração. Adolescentes, em especial, percebem quando o adulto desqualifica algo sem compreendê-lo genuinamente e isso compromete a confiança no diálogo. A pergunta mais produtiva pode ir além do “por que o carnaval é errado?”, para “que visão de alegria estamos cultivando em nossos alunos?”
A Escritura não é tímida ao falar de alegria. Os Salmos transbordam dela. Paulo, escrevendo de uma prisão, ordena: “Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se!” (Filipenses 4:4). A alegria bíblica não depende de circunstâncias, não exige excessos e não deixa vazio no dia seguinte. Gálatas 5:22 a identifica como fruto do Espírito: algo que cresce, amadurece e permanece. Quando a escola cristã vive e ensina essa alegria de forma autêntica como experiência real nas relações, devocionais e convivência diária (não só no marketing ou discursos), ela oferece o que nenhuma festividade temporária consegue replicar.
O ALUNO QUE ESTÁ NA SALA
Essa reflexão precisa, em algum momento, encontrar o aluno real que está sentado na sala de aula. A criança de seis anos que chegou à escola com glitter no rosto não está fazendo uma declaração teológica, está reproduzindo o que viu em casa. O adolescente que pergunta “qual o problema de curtir o carnaval?” pode estar testando limites, mas também pode estar buscando uma resposta que faça sentido para ele. Nos dois casos, a forma como o educador responde importa tanto quanto o conteúdo da resposta.
O educador que foi formado para pensar biblicamente sobre diferentes assuntos, incluindo a cultura, terá segurança diante dessas situações. Ele as reconhece como momentos pedagógicos, oportunidades de caminhar ao lado do aluno. Não se trata de vencer um debate, mas de formar um coração. Aqui surgem perguntas que valem a pena para toda equipe pedagógica: A linguagem que usamos ao tratar o tema transmite convicção com graça ou apenas rejeição? Nossos professores se sentem preparados para conduzir essas conversas de forma adequada à faixa etária dos alunos, com segurança bíblica e sensibilidade? Essas perguntas (ou melhor, as respostas) revelam o quanto a escola está preparada para exercer sua vocação formadora nesse momento específico do calendário.
A FAMÍLIA COMO ALIADA, NÃO COMO VARIÁVEL
A escola cristã que deseja ser coerente em seu posicionamento precisa considerar que as famílias não são um bloco homogêneo. Há famílias profundamente convictas que esperam da escola um reforço claro de seus valores. Há famílias que participam de festividades culturais sem enxergar contradição com a fé. E há famílias em processo de amadurecimento, que buscam orientação justamente porque confiam na escola.
Deuteronômio 6:6-9 nos lembra que a formação espiritual dos filhos é, em primeiro lugar, responsabilidade dos pais. A escola cristã não substitui esse papel, ela o complementa e apoia. Quando a escola se posiciona como parceira da família e não como tribunal, o resultado é confiança mútua e coerência na formação da criança.
É tentador tratar o carnaval como uma questão pontual, algo que se resolve com um evento alternativo ou um comunicado bem redigido, mas a maneira como a escola cristã lida com o carnaval pode ser um reflexo de como lida com a cultura o ano inteiro.
Kuyper nos lembrou que cada centímetro quadrado pertence a Cristo. Schaeffer nos ensinou a perguntar o que a cultura está dizendo e se isso é verdadeiro. Paulo nos chamou a não nos conformar com o mundo, mas a transformar nossa mente. Essas verdades são válidas para a semana do carnaval e fundamentam o ano inteiro. A escola que incorpora esse referencial em seu currículo, em suas práticas diárias e na formação contínua de seus professores não precisa improvisar diante do carnaval. Ela já tem, ao longo do ano, o alicerce para responder com coerência.
Vamos para a última pergunta, talvez a mais importante: O que fazemos durante todo o ano letivo para formar alunos que, diante de qualquer manifestação cultural, saibam analisar, refletir e responder biblicamente por conta própria?
Quando essa pergunta é respondida com honestidade e consistência, o carnaval deixa de ser um problema e se torna mais um momento em que a cosmovisão bíblica, já cultivada ao longo do ano, encontra uma aplicação concreta.
A ACSI existe para caminhar ao lado das escolas cristãs nos desafios reais da educação. Sabemos que tratar o carnaval com sabedoria exige mais do que boas intenções, é preciso fundamentação bíblica, maturidade pedagógica e sensibilidade.
Sabemos também que sua escola, ao fazer essas perguntas com seriedade, já está no caminho certo, não porque tenha todas as respostas, mas porque está fazendo as perguntas certas e está disposta a respondê-las à luz da Palavra.
Que o Senhor dê sabedoria e graça a cada educador, coordenador e família que, neste e em todos os momentos, deseja formar uma geração que viva para a glória de Cristo.
