A Escola Cristã Diante do Carnaval

Todo ano, quando o calendário se aproxima do carnaval, uma inquietação percorre os corredores de algumas escolas cristãs. Professores se perguntam o que dizer quando o assunto inevitavelmente surgir em sala. Famílias aguardam (algumas com expectativa e outras com apreensão) a posição da escola. E, no meio disso tudo, há crianças e adolescentes que simplesmente vivem o que está ao redor, tentando entender o mundo com as ferramentas que lhes foram dadas. 

A ACSI (Associação Internacional de Escolas Cristãs) entende que cada escola opera em um contexto específico, com famílias diversas e realidades regionais distintas. Mas há perguntas que, quando feitas com honestidade e à luz das Escrituras, conduzem a respostas sábias. Este artigo não vai falar o que sua escola deve fazer. Queremos ajudá-los a pensar com profundidade sobre o por quê antes do como

 

ANTES DA ESTRATÉGIA, A PERGUNTA 

A primeira reação diante do carnaval costuma ser operacional: Fazemos um evento alternativo? Enviamos uma carta às famílias? Essas são perguntas legítimas, mas de segundo nível. Antes, a pergunta que merece atenção é “de que forma lidamos com o carnaval para revelar a compreensão que temos de educação cristã? 

Se a escola cristã existe para formar pessoas que pensam, vivem e se relacionam a partir de uma cosmovisão bíblica, então cada decisão, inclusive as que envolvem o carnaval, é uma oportunidade de encarnar essa missão. Não é um “problema a ser resolvido”, mas de um momento pedagógico a ser aproveitado. 

Abraham Kuyper, teólogo e estadista holandês, expressou com precisão uma verdade que sustenta toda educação cristã consistente: “Não há um único centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: ‘É meu!’” Essa afirmação é um lema inspirador e um pressuposto educacional. Se Cristo é Senhor sobre toda a realidade, então nenhuma esfera da vida humana, incluindo a cultura, as festas e as tradições, está fora do alcance de Seu senhorio e, portanto, fora do alcance da reflexão cristã. 

Isso significa que a cultura não precisa ser um território inimigo a ser evitado, nem neutro a ser ignorado. É território de Deus a ser discernido. A Escritura nos ensina que toda a criação pertence ao Senhor e que o ser humano, mesmo em sua condição caída, carrega marcas da imagem do Criador, como a criatividade. 

Francis Schaeffer, em A Arte e a Bíblia, nos oferece um princípio valioso para esse exercício de discernimento: toda expressão cultural deve ser avaliada em duas dimensões: sua qualidade técnica e a mensagem que ela carrega. Reconhecer a habilidade criativa presente em uma manifestação cultural não significa endossar seus valores. O cristão aprecia o dom da criatividade como reflexo da imagem de Deus no ser humano e, ao mesmo tempo, discerne quando esse dom é colocado a serviço de uma narrativa que contradiz a verdade revelada. Como Schaeffer observou, a arte nunca é neutraela sempre diz algo sobre a realidade, sobre o ser humano e, em última instância, sobre Deus. 

Ao mesmo tempo, Paulo nos adverte com clareza: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Romanos 12:2). A renovação da mente acontece pelo discernimento que se aprende. É exatamente aí que a escola cristã tem uma oportunidade de ouro! 

 

ESTAMOS ENSINANDO OS ALUNOS A DISCERNIR A CULTURA OU APENAS A EVITÁ-LA? 

Existe uma diferença importante entre as duas atitudes: evitar é reflexo, enquanto discernir é formação. O aluno que apenas aprende a evitar poderá enfrentar dificuldades ao tomar decisões. Já aquele que desenvolve o discernimento leva consigo um referencial capaz de orientá-lo em qualquer contexto e momento da vida. 

Se o senhorio de Cristo se estende sobre toda a realidade, então a escola cristã não pode se furtar ao exercício de pensar sobre aquilo que o mundo ao redor apresenta aos seus alunos. O papel da escola é ensinar a fazer as perguntas corretas (que conduzam o aluno a um processo genuíno de análise, reflexão e resposta) que estejam sempre fundamentadas nas Escrituras. 

Esse processo não é simples ou formatado. Ele precisa respeitar a capacidade intelectual e a maturidade de cada faixa etária. A criança da Educação Infantil não precisa de uma aula sobre cosmovisão, precisa experimentar a alegria de uma comunidade que celebra a bondade de Deus de maneiras concretas e acessíveis. O aluno do Ensino Fundamental está começando a perceber que existem visões de mundo diferentes; ele precisa de espaço para perguntar e de adultos que o ajudem a pensar com segurança. Já o adolescente do Ensino Médio está formando convicções próprias e precisa ser desafiado a articular o que acredita e por quê. 

Schaeffer nos lembra que a pergunta fundamental diante de qualquer expressão cultural não é apenas “isso é bonito?” ou “isso me agrada?”, mas “o que isso está dizendo e se é verdadeiro?” Ensinar o aluno a fazer essa pergunta, de forma adequada à sua idade, é um presente que a educação cristã pode oferecer.  

Diante disso, vale a pena que cada equipe pedagógica se pergunte: As perguntas que fazemos aos nossos alunos sobre a cultura os conduzem a pensar biblicamente, ou apenas a repetir respostas esperadas? Nosso currículo e nossas práticas ao longo do ano estão formando alunos capazes de analisar, refletir e responder com fundamento bíblico ou o discernimento cultural só aparece na semana de uma data comemorativa? 

Parte do apelo do carnaval está na promessa de alegria, liberdade e celebração. Adolescentes, em especial, percebem quando o adulto desqualifica algo sem compreendê-lo genuinamente e isso compromete a confiança no diálogo. A pergunta mais produtiva pode ir além do “por que o carnaval é errado?”, para “que visão de alegria estamos cultivando em nossos alunos?” 

A Escritura não é tímida ao falar de alegria. Os Salmos transbordam dela. Paulo, escrevendo de uma prisão, ordena: “Alegrem-se sempre no Senhor. Novamente direi: alegrem-se!” (Filipenses 4:4). A alegria bíblica não depende de circunstâncias, não exige excessos e não deixa vazio no dia seguinte. Gálatas 5:22 a identifica como fruto do Espírito: algo que cresce, amadurece e permanece. Quando a escola cristã vive e ensina essa alegria de forma autêntica como experiência real nas relações, devocionais e convivência diária (não só no marketing ou discursos), ela oferece o que nenhuma festividade temporária consegue replicar.  

 

O ALUNO QUE ESTÁ NA SALA 

Essa reflexão precisa, em algum momento, encontrar o aluno real que está sentado na sala de aula. A criança de seis anos que chegou à escola com glitter no rosto não está fazendo uma declaração teológica, está reproduzindo o que viu em casa. O adolescente que pergunta “qual o problema de curtir o carnaval?” pode estar testando limites, mas também pode estar buscando uma resposta que faça sentido para ele. Nos dois casos, a forma como o educador responde importa tanto quanto o conteúdo da resposta. 

educador que foi formado para pensar biblicamente sobre diferentes assuntos, incluindo a cultura, terá segurança diante dessas situações. Ele as reconhece como momentos pedagógicos, oportunidades de caminhar ao lado do aluno. Não se trata de vencer um debate, mas de formar um coração. Aqui surgem perguntas que valem a pena para toda equipe pedagógica: A linguagem que usamos ao tratar o tema transmite convicção com graça ou apenas rejeição? Nossos professores se sentem preparados para conduzir essas conversas de forma adequada à faixa etária dos alunos, com segurança bíblica e sensibilidade? Essas perguntas (ou melhor, as respostas) revelam o quanto a escola está preparada para exercer sua vocação formadora nesse momento específico do calendário. 

 

A FAMÍLIA COMO ALIADA, NÃO COMO VARIÁVEL 

A escola cristã que deseja ser coerente em seu posicionamento precisa considerar que as famílias não são um bloco homogêneo. Há famílias profundamente convictas que esperam da escola um reforço claro de seus valores. Há famílias que participam de festividades culturais sem enxergar contradição com a fé. E há famílias em processo de amadurecimento, que buscam orientação justamente porque confiam na escola.  

Deuteronômio 6:6-9 nos lembra que a formação espiritual dos filhos é, em primeiro lugar, responsabilidade dos pais. A escola cristã não substitui esse papel, ela o complementa e apoia. Quando a escola se posiciona como parceira da família e não como tribunal, o resultado é confiança mútua e coerência na formação da criança.  

É tentador tratar o carnaval como uma questão pontual, algo que se resolve com um evento alternativo ou um comunicado bem redigido, mas a maneira como a escola cristã lida com o carnaval pode ser um reflexo de como lida com a cultura o ano inteiro.  

Kuyper nos lembrou que cada centímetro quadrado pertence a Cristo. Schaeffer nos ensinou a perguntar o que a cultura está dizendo e se isso é verdadeiro. Paulo nos chamou a não nos conformar com o mundo, mas a transformar nossa mente. Essas verdades são válidas para a semana do carnaval e fundamentam o ano inteiro. A escola que incorpora esse referencial em seu currículo, em suas práticas diárias e na formação contínua de seus professores não precisa improvisar diante do carnaval. Ela já tem, ao longo do ano, o alicerce para responder com coerência. 

Vamos para a última pergunta, talvez a mais importante: O que fazemos durante todo o ano letivo para formar alunos que, diante de qualquer manifestação cultural, saibam analisar, refletir e responder biblicamente por conta própria? 

Quando essa pergunta é respondida com honestidade e consistência, o carnaval deixa de ser um problema e se torna mais um momento em que a cosmovisão bíblica, já cultivada ao longo do ano, encontra uma aplicação concreta. 

A ACSI existe para caminhar ao lado das escolas cristãs nos desafios reais da educação. Sabemos que tratar o carnaval com sabedoria exige mais do que boas intenções, é preciso fundamentação bíblica, maturidade pedagógica e sensibilidade.  

Sabemos também que sua escola, ao fazer essas perguntas com seriedade, já está no caminho certo, não porque tenha todas as respostas, mas porque está fazendo as perguntas certas e está disposta a respondê-las à luz da Palavra. 

Que o Senhor dê sabedoria e graça a cada educador, coordenador e família que, neste e em todos os momentos, deseja formar uma geração que viva para a glória de Cristo. 

 

TODO PROFESSOR TEM UM "SISTEMA OPERACIONAL"

 

Como as escolhas invisíveis da sala de aula revelam uma filosofia profunda sobre educação 

 

É janeiro. O professor está organizando sua sala de aula para o novo ano letivo.  

  • Cadeiras? Checadas.  
  • Material didático? Separado.  
  • Planejamento? Pronto.  
  • Versículo na parede? Escolhido e impresso.  

Tudo parece estar no lugar. Mas enquanto arruma os últimos detalhes, alguém entra na sala e faz uma pergunta aparentemente simples: "Qual é a sua filosofia de educação?" Se o educador é como a maioria dos seus colegas, provavelmente hesitaria. "Filosofia? Eu apenas... ensino. Amo meus alunos. Sigo o currículo. Oro antes das aulas." Mas aqui está a verdade incômoda: todo professor já tem uma filosofia de educação. Todos têm. A questão não é se o educador opera a partir de um sistema filosófico, mas qual sistema está operando através dele, muitas vezes, sem que perceba. E neste ano que se inicia, talvez não haja reflexão mais importante para um educador cristão do que esta: Que pressupostos invisíveis estão moldando a prática em sala de aula? 

 

O SISTEMA OPERACIONAL INVISÍVEL 

Pense no computador ou celular por um momento. Quando se abre o navegador, digita um texto ou assiste a um vídeo, tudo funciona perfeitamente. Mas raramente se pensa no que está acontecendo "por baixo do capô". Ali, invisível, mas absolutamente essencial, está o sistema operacional (Windows, MacOS, iOS, Android). Ele é a base que faz tudo funcionar. Determina como os programas se comunicam, como os arquivos são organizados, como a interação acontece com a máquina. É possível até trocar de aplicativo, mas enquanto não se muda o sistema operacional, certas coisas fundamentais permanecerão iguais. 

Agora, prepare-se para uma comparação que pode mudar a forma de ver a educação: Todo educador opera a partir de um "Sistema Operacional Pedagógico" (SOP) invisível. Esse sistema é a estrutura filosófica que responde, conscientemente ou não, a perguntas que provavelmente nunca foram feitas em voz alta: 

  • O que torna algo verdadeiro? 
  • Quem realmente é o ser humano? 
  • De onde vem a autoridade para ensinar? 
  • Qual é o propósito final da educação? 

O professor pode até usar os mesmos livros didáticos que a escola secular do outro lado da rua. Pode ensinar os mesmos fatos: fotossíntese, equações do segundo grau, análise sintática. Mas se seu SOP for diferente, está formando pessoas completamente diferentes. E aqui está o que poucos percebem: provavelmente o sistema operacional foi herdado sem nunca ter sido conscientemente escolhido para instalação. 

 

O PROBLEMA: NINGUÉM ENSINOU A VER O INVISÍVEL 

Se isso parece novidade, não há motivo para constrangimento. A grande maioria dos educadores cristãos (pessoas brilhantes, dedicadas, que amam Jesus e amam seus alunos) nunca recebeu formação para identificar os pressupostos filosóficos por trás das práticas pedagógicas. Na faculdade, aprendem-se metodologias (como ensinar), psicologia (como a mente funciona) e didática (como planejar aulas). Tudo isso é importante. Mas raramente alguém pergunta: "Sobre que fundamento filosófico está sendo construído tudo isso?" 

É como aprender a construir uma casa sem nunca examinar o terreno onde ela será erguida. É possível ter as melhores ferramentas e técnicas, mas se o solo está comprometido, a casa não ficará de pé. E aqui está uma realidade: muitos educadores estão ensinando a partir de fundamentos que nunca examinaram. Pegam emprestado modelos, seguem tendências pedagógicas, aplicam técnicas que "funcionam", sem perceber que por trás de cada metodologia há uma visão de mundo. Vejamos como isso funciona na prática: 

CENA: AULA DE HISTÓRIA (dois professores ensinando sobre moralidade e direitos humanos): 

  • Professor A: "Certo e errado são construções sociais que evoluem com o tempo. Cada cultura define seus próprios valores." 
  • Professor B: "Existem padrões morais objetivos que transcendem culturas e épocas, fundamentados no caráter de Deus." 

Mesma conversa sobre ética, mas sistemas operacionais radicalmente diferentes produzindo conclusões opostas. E aqui está a pergunta: quando o professor ensina, seja matemática, português, ciências, artes, qual desses sistemas está rodando em segundo plano? 

 

A ARMADILHA DO "CRISTIANISMO COSMÉTICO" 

Analise o que acontece com muitos educadores cristãos sinceros: eles aprendem metodologias seculares na faculdade (que vêm carregadas de pressupostos filosóficos não-cristãos). Então tentam "cristianizar" essas metodologias adicionando elementos religiosos por cima, uma oração aqui, um versículo ali, uma aula de Bíblia na grade. É como tentar rodar um aplicativo cristão em um sistema operacional secular. Pode até funcionar superficialmente, mas no fundo, há incompatibilidade de código. 

Um exemplo que provavelmente já foi visto: uma escola se autodenomina "cristã" e tem todos os elementos visuais certos: oração antes das aulas, versículos nos corredores e capelania. Mas quando se observa de perto, as perguntas começam a surgir: Por que tratam os alunos apenas como "produtos" que precisam alcançar notas? Por que a disciplina se baseia apenas em recompensas e punições? Por que ensinam que "cada um tem sua verdade" quando falam de valores? Por que o propósito implícito da educação parece ser sucesso individual e status social? O sistema operacional real dessa escola é secular humanista, apenas com uma "skin" cristã por cima. E o mais comum? Alguns não percebem que estão rodando no sistema errado. 

 

A URGÊNCIA DE ABRIR OS OLHOS 

Vivemos em uma era de caos filosófico. Ideologias competem pela mente dos alunos: 

  • "Sua verdade não é minha verdade." 
  • "Identidade é construída, não descoberta." 
  • "Certo e errado são imposições opressivas." 

E quando um aluno questiona: "Professor, por que o senhor acredita que existe verdade absoluta?", o que é respondido? Se a resposta é: "Porque a Bíblia diz" ou "Porque eu acredito assim"a batalha foi perdida antes de começar. Os alunos precisam de algo mais robusto. Eles merecem educadores que sabem por que acreditam no que acreditam. C.S. Lewis capturou essa urgência com perfeição:  

"Cristo quer de nós um coração de criança, mas a cabeça de um adulto. Quer-nos simples, centrados, afetuosos e dóceis no aprendizado, como boas crianças são; mas também quer que cada fração da inteligência que possuímos esteja alerta e afiada para a batalha." (Cristianismo Puro e Simples.) 

Um coração de criança: humildade, dependência, confiança simples em Deus. Uma cabeça de adulta: capacidade de pensar criticamente, discernir erro, defender verdade. Não é possível ser pessoas que têm boa vontade e coração puro, mas que são intelectualmente despreparadas para proteger a mente de seus alunos. 

 

PERGUNTAS QUE NÃO PODEM MAIS ESPERAR 

Então, o que fazer? Como identificar o sistema operacional que está rodando na prática pedagógica? Começa-se fazendo perguntas honestas: 

  • Sobre a natureza da realidade: Quando se ensina ciências, está sendo comunicado que o universo é produto do acaso ou revelação do design de Deus? Os alunos são tratados como apenas mais avançados na escala evolutiva ou como portadores de algo único chamado "imagem de Deus"? 
  • Sobre a natureza do conhecimento: Acredita-se que existem verdades absolutas ou que "tudo é relativo ao contexto"? Quando se corrige um aluno, está sendo imposta apenas "minha opinião" ou está sendo apontado para padrões objetivos? 
  • Sobre o propósito da educação: Estão sendo preparados os alunos apenas para o mercado de trabalho ou para viver como discípulos em todas as áreas da vida? As disciplinas são ensinadas como compartimentos isolados ou como partes integradas de uma visão coerente de mundo sob o senhorio de Cristo? 

Se há hesitação em alguma dessas respostas, bem-vindo ao clube. A maioria está descobrindo que há lacunas profundas na formação. E isso não é motivo para vergonha. É motivo para ação. 

 

2026: O ANO DE VER O INVISÍVEL 

A boa notícia é que o educador não precisa fazer essa jornada sozinho. A ACSI Brasil está comprometida em equipar educadores cristãos que desejam ir além do superficial, que querem entender os fundamentos filosóficos que sustentam uma educação verdadeiramente cristã. Por isso, ao longo de 2026, os Encontros de Professores (aulas ao vivo e exclusivas para educadores das escolas associadas) trarão uma jornada formativa especial sobre filosofia da educação cristã, onde será explorado juntos: 

  • Como identificar o "sistema operacional" que está rodando na escola; 
  • Quais pressupostos filosóficos estão por trás das metodologias mais usadas hoje; 
  • Como integrar fé e aprendizagem de forma coerente em todas as disciplinas; 
  • Como responder às perguntas difíceis que os alunos estão fazendo sobre verdade, identidade e propósito. 

Serão conversas práticas, aplicáveis, que equiparão para segunda-feira de manhã na sala de aula. Porque educação cristã transformadora exige educadores em constante transformação. E transformação começa quando se abrem os olhos para aquilo que sempre esteve lá, mas nunca havia sido enxergado. 

2026 está apenas começando. As cadeiras estão arrumadas. O planejamento está pronto. Mas antes de mergulhar na rotina, é preciso fazer uma pausa. O professor sabe qual sistema operacional está rodando em sua prática pedagógica? Se a resposta é "não tenho certeza", não está sozinho. Mas também não precisa continuar no escuro. Este pode ser o ano em que o educador: 

  • Descobre os fundamentos filosóficos de sua vocação como educador; 
  • Aprende a integrar fé e aprendizagem com coerência e profundidade; 
  • Equipa-se para formar discípulos, não apenas alunos competentes; 
  • Encontra uma comunidade de educadores caminhando na mesma direção. 

A ACSI está aqui para acompanhar nessa jornada. Porque quando educadores operam a partir do sistema operacional certo (enraizado na verdade de Deus), escolas inteiras são transformadas. E quando escolas são transformadas, culturas mudam. 

Bem-vindo a 2026. Que este seja o ano em que se enxerga o invisível e nunca mais se ensina da mesma forma. 

Quer fazer parte dessa jornada? Se a escola ainda não é associada à ACSI Brasil, este é o momento de conhecer como é possível caminhar juntos. Os programas de formação, mentorias e comunidade de educadores estão prontos para equipar com excelência acadêmica e fidelidade bíblica. 

Visite www.acsi.com.br e descubra como sua escola pode se associar! 

Educar na perspectiva do Reino não é opcional. É o chamado mais urgente do nosso tempo. E começa quando se decide examinar os fundamentos sobre os quais está sendo construído. 

Vamos juntos? 

 

Quem é o aluno da escola cristã?

Uma visão bíblica, acadêmica e formativa para o perfil do estudante na educação cristã 

 
 
Na biblioteca silenciosa de uma escola cristã, um aluno folheia um atlas, enquanto ao lado repousa uma Bíblia aberta em Colossenses 1:17: “Ele é antes de todas as coisas, e nele tudo subsiste.” Ao virar as páginas, não enxerga apenas países e fronteiras, mas histórias marcadas pela providência de Deus, culturas que refletem tanto a beleza quanto a queda da criação. Naquela escola, cada mapa estudado, cada fórmula resolvida e cada verso literário analisado é um ato de redescoberta: o mundo não é um conjunto de fragmentos desconexos, mas uma narrativa única escrita pelo Criador. Assim começa a formação do aluno cristão — um aprendizado que integra mente, coração e espírito, onde todo conhecimento é iluminado pela verdade que não muda. 

Essa cena ilustra, de forma simples, o coração da educação cristã. Definir o perfil do aluno não é preencher um item no Projeto Político-Pedagógico; é responder à pergunta: quem é a pessoa que queremos formar e enviar para o mundo? Na perspectiva bíblica, o perfil do estudante não se resume a competências técnicas ou resultados acadêmicos. Ele expressa uma visão de ser humano criada por Deus, caída pelo pecado, redimida em Cristo e chamada a viver para a Sua glória. 
 
Excelência Acadêmica: mais do que boas notas 

Quando falamos de “excelência” na escola cristã, não nos referimos apenas a desempenho em provas ou médias elevadas. Excelência, do latim excellentia, significa “aquilo que está acima, que se sobressai”. No contexto bíblico, ela é o compromisso de fazer tudo “de todo o coração, como para o Senhor e não para homens” (Cl 3:23). Isso implica um padrão elevado de estudo, pesquisa e raciocínio, não por vaidade ou competição, mas como ato de adoração. 

Na prática, o aluno da escola cristã é conduzido a compreender que cada disciplina acadêmica revela aspectos do caráter e da ordem de Deus. Ao estudar geometria, percebe a beleza e a precisão do Criador; ao explorar a literatura, identifica narrativas que ecoam a luta entre bem e mal, verdade e mentira; ao mergulhar nas ciências, reconhece que investigar o mundo é investigar a obra de Deus. Numa aula sobre a origem do universo, por exemplo, não se trata apenas de comparar a teoria do Big Bang com a narrativa da criação, mas de analisar quais pressupostos filosóficos estão por trás de cada visão e como a cosmovisão bíblica oferece uma explicação coerente e revelada para a realidade. Assim, o estudante domina o conteúdo e aprende a pensar biblicamente sobre ele. 

Essa visão de excelência o prepara para dialogar com maturidade em contextos acadêmicos e profissionais, sem compartimentar a fé. Ele entende que não existe separação entre “conhecimento secular” e “conhecimento espiritual” — há apenas a verdade, que vem de Deus e se manifesta em todos os campos do saber. 

 
Aprendiz para toda a vida: a postura de quem nunca deixa de crescer 

O termo “aprendiz para toda a vida” (lifelong learner) descreve aquele que mantém, ao longo de toda a existência, a disposição de aprender, rever, aprofundar e aplicar o conhecimento. Biblicamente, essa postura é um ato de humildade e obediência ao chamado de “crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 3:18). Na escola cristã, formar um aprendiz desse tipo significa cultivar um estudante que não se satisfaz com respostas superficiais, que busca compreender a verdade e aplicá-la de forma sábia e prática. 

Em uma aula de história, por exemplo, o aluno não apenas memoriza datas e eventos, mas é levado a analisar como Deus governa o curso das nações (Dn 2:21), identificando padrões de justiça e corrupção, prosperidade e queda. Ele percebe que aprender sobre o passado é também aprender sobre a providência divina e suas implicações para o presente. Essa compreensão o impulsiona a continuar estudando após a formatura, pois vê o conhecimento como um campo de serviço a Deus e ao próximo. 

Essa disposição permanente para aprender evita o risco de estagnação espiritual e intelectual. O estudante que compreende a vida como discipulado constante não teme o avanço da ciência, as mudanças culturais ou os desafios éticos; ao contrário, ele se aprofunda, examina e responde com discernimento, sempre ancorado na Escritura. 

 

Caráter moldado pela Palavra: o centro da formação 

Se a excelência e a disposição para aprender estabelecem a mente do estudante, é o caráter que define seu coração e suas ações. A palavra “caráter”, de origem grega (kharaktḗr), significa “marca” ou “impressão”. Na perspectiva cristã, é a marca de Cristo impressa na vida do aluno, moldando sua ética, suas prioridades e seu relacionamento com os outros. 

Na escola cristã, a formação de caráter não é um “projeto paralelo” ou restrito a momentos devocionais; ela está presente na correção de um trabalho, na forma de resolver um conflito, na maneira de lidar com uma derrota ou vitória. Quando um grupo de alunos enfrenta divergências em um projeto, o professor arbitra a disputa e ensina a aplicar Mateus 18:15-17, guiando-os a confrontar com amor, ouvir com humildade e buscar reconciliação. Assim, a sala de aula se torna laboratório de virtudes como bondade, domínio próprio, perseverança, santidade, misericórdia e amor (2Pe 1:5-7). 
 
Esse caráter, quando enraizado na Palavra, dá ao aluno estabilidade diante das pressões externas. Ele aprende a fazer o que é certo, não porque será avaliado ou recompensado, mas porque deseja viver de forma íntegra diante de Deus e dos homens. 

 
Servir com visão de eternidade: a finalidade do aprendizado 

Servir, na perspectiva bíblica, é colocar-se à disposição de Deus e do próximo com amor e diligência. O aluno cristão compreende que sua vida — e, por consequência, seu aprendizado — não existe para seu próprio benefício, mas para contribuir com a edificação da sociedade e o avanço do Reino de Deus. Jesus resumiu essa postura ao dizer: “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mc 10:45). 

Essa visão amplia o horizonte do estudante. Ele entende que ser médico não é apenas exercer uma profissão de prestígio, mas cuidar de vidas como expressão da compaixão de Cristo; que ser engenheiro não é apenas criar soluções técnicas, mas exercer a mordomia responsável da criação de Deus; que ser professor é investir em outras mentes e corações, perpetuando o ciclo do discipulado. Na escola cristã, servir é apresentado não como uma atividade extracurricular ou voluntária, mas como vocação que atravessa todas as áreas da vida. 

A consciência de eternidade transforma a forma como o aluno lida com o presente. Ele não se deixa levar apenas por resultados imediatos, porque sabe que suas ações têm repercussões eternas. Isso o motiva a viver com propósito, excelência e compaixão, seja qual for o cenário ou desafio que enfrente. 
 
Conclusão: um perfil que integra mente, coração e mãos 
O perfil do aluno da escola cristã é uma síntese viva de excelência acadêmica, disposição para aprender continuamente, caráter moldado pela Palavra e serviço com visão de eternidade. Essas quatro dimensões não são independentes, mas entrelaçadas: a excelência conduz à humildade do aprendiz; o aprendizado constante molda o caráter; o caráter firmado na Palavra impulsiona o serviço; e o serviço, quando feito para a glória de Deus, retroalimenta a busca pela excelência. 
 
A ACSI reconhece que formar esse perfil exige intencionalidade, currículo integrado e professores comprometidos com a verdade bíblica. Mais do que transmitir conteúdos, a escola cristã prepara discípulos-pensadores que compreendem a vida sob o senhorio de Cristo e estão prontos para impactar o mundo com a luz da verdade. Esse é o legado que permanece, pois “a palavra do Senhor permanece para sempre” (1Pe 1:25). 

Ensinando na Era da IA: Imaginação, Sabedoria e Trabalho Humano

A inteligência artificial não está mais batendo à porta das nossas escolas — ela já entrou. Está presente na sala de aula, na sala dos professores e no escritório da equipe gestora. Para muitos educadores, este momento pode ser vivido com um misto de entusiasmo e apreensão. Será que a IA é a solução para os desafios mais urgentes da educação? Ou será que ela ameaça enfraquecer as conexões humanas, que são o coração do ensino?

A verdade é que a IA não é nem uma varinha mágica nem o fim da educação como conhecemos. Assim como qualquer ferramenta poderosa, o impacto da IA dependerá da imaginação, da sabedoria e do discernimento com que decidirmos utilizá-la.

Este é um convite — ou melhor, um chamado — para que educadores e líderes escolares pensem com profundidade, ajam com intencionalidade e jamais se esqueçam de que o trabalho mais essencial da educação será sempre um trabalho humano.

 

As Narrativas que Contamos Sobre a IA Fazem Diferença

A forma como imaginamos a inteligência artificial influencia diretamente como lidamos com ela. Muitos de nós crescemos com imagens de IA tiradas da ficção científica — robôs simpáticos como o R2-D2 de Star Wars ou a Rosie dos Jetsons; ou ameaçadores como o Exterminador do Futuro ou o Agente Smith da Matrix. Essas imagens culturais até servem como ponto de partida, mas não são suficientes para nortear nossa prática pedagógica. Elas tendem a simplificar demais a IA — ora como salvadora, ora como vilã.

Em vez disso, precisamos de histórias mais robustas, que nos convidem a enxergar a IA como uma ferramenta — uma ferramenta potente e potencialmente transformadora, sim — mas que exige criatividade, empatia e ética humanas para ser bem utilizada.

As Escrituras oferecem exatamente essa lente: nos revela tanto a bondade da criação quanto a profundidade da queda, apontando que somente a beleza da obra redentora de Cristo é a única solução para os efeitos generalizados do pecado. Ao compreendermos a grande narrativa bíblica — criação, queda, redenção e restauração — ganhamos maior clareza sobre quem somos e para quê fomos criados como seguidores de Cristo.

Fomos chamados a ser mordomos da criação, fazer discípulos e trabalhar pela restauração e pelo florescimento da vida no mundo. Esse chamado não é suspenso quando acessamos uma nova plataforma com IA — na verdade, essa responsabilidade se intensifica, especialmente quando lidamos com crianças e adolescentes. Temos a oportunidade e a missão de ajudá-los a enxergar sua história dentro da história de Deus — e a discernir como responder às questões complexas do nosso tempo, incluindo o uso ético e sábio da IA.

 

O Principal Precisa Continuar Sendo o Principal

Diante dessa responsabilidade tão grande, precisamos enxergar o ensino como um ato intencional — construindo experiências, conduzindo investigações e criando ambientes que favoreçam o aprendizado verdadeiro. Precisamos levar a sério essa missão!

Acredito que, na era da IA, devemos valorizar ainda mais aquilo que é essencialmente humano no ato de ensinar. A IA pode ser útil em diversos aspectos da prática docente — como sugerir planos de aula, gerar ideias de atividades, elaborar critérios de avaliação, entre outros. Mas ela não consegue fazer o trabalho profundo, relacional e adaptativo de conhecer cada aluno, perceber o clima da sala e ajustar a aula em tempo real. Tampouco pode experimentar a alegria de ver o brilho nos olhos de um aluno ao fazer uma descoberta significativa.

Ensinar vai muito além de repassar conteúdo. Se reduzirmos o ensino à simples transmissão de informações, corremos o risco de supervalorizar o que a IA pode fazer e desvalorizar a arte humana da educação. Precisamos de humanos fazendo o trabalho que só humanos podem fazer! 

E que trabalho humano é esse? É ouvir com atenção, perceber sinais sutis, responder com empatia. É construir confiança para que os alunos se sintam seguros ao correr riscos intelectuais. É contar histórias que revelam o sentido por trás dos fatos. Uma educação cristã autêntica forma pessoas integrais — corpo, mente e espírito — não apenas entrega conteúdos.

Esse trabalho humano também é moral: exige que perguntemos, não apenas “Podemos fazer isso?”, mas “Devemos fazer isso?” em nossas salas de aula e instituições. Essa é uma pergunta que todo educador cristão precisa levar a sério. Não devemos adotar novas tecnologias apenas porque são modernas, embora essa tentação seja real. Elas precisam promover o florescimento humano.

 

Cultivando uma Imaginação para a IA

Se quisermos usar a IA de maneira sábia, precisamos cultivar uma imaginação enraizada na esperança, não no medo. Isso significa perguntar: 

  • Como a IA pode nos ajudar a ter mais tempo para construir relacionamentos, aliviando tarefas administrativas?
  • Como pode nos apoiar na personalização do ensino, respeitando as necessidades individuais dos alunos?
  • Como ferramentas com IA podem ajudar os alunos a explorar ideias, formular melhores perguntas e criar com mais profundidade?
  • Como a IA pode ser usada no esforço de restauração que os cristãos são chamados a fazer, seguindo o caminho de serviço de Jesus?

Mas também precisamos imaginar os riscos, para que possamos vigiá-los com prudência: dependência da IA para pensar, perda de habilidades críticas ou até atalhos éticos que comprometem o aprendizado. Neste mundo manchado pelo pecado, esses são, infelizmente, problemas reais. 

 

Um Chamado à Coragem e à Esperança

A era da inteligência artificial vai testar nossa capacidade de adaptação como educadores. Certamente teremos que rever muitas suposições antigas sobre como trabalhamos. Mas essa nova realidade também nos oferece possibilidades notáveis, se formos guiados por imaginação, sabedoria e coragem.

Professores e líderes escolares, não estamos sendo substituídos! O coração do nosso trabalho — ensinar com amor, servir com integridade e discipular com intencionalidade — não pode ser automatizado. A IA pode até executar tarefas, mas jamais poderá encarnar cuidado, inspirar confiança ou modelar caráter. Esse é o trabalho humano insubstituível que levamos conosco todos os dias à escola.

Portanto, ao explorarmos a IA em nossas práticas, busque sabedoria acima da novidade, formação acima da informação. Deixe sua imaginação ser moldada por histórias de esperança e restauração. E confi que, com discernimento, podemos usar a IA não para diminuir o aspecto humano da educação, mas para elevá-lo.

Nosso objetivo final deve ser glorificar a Deus servindo nossos alunos com excelência, utilizando os recursos disponíveis com criatividade, sabedoria e responsabilidade.

 

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Sobre o autor

Dr. Dave Mulder é professor de Educação na Dordt University (EUA), onde atua nas áreas de tecnologia educacional, ensino de STEM e fundamentos da educação. Com formação como professor de Matemática, Ciências, Bíblia e Tecnologia em escolas cristãs, e doutorado em tecnologia educacional, ele busca traduzir pesquisas acadêmicas em práticas aplicáveis da Educação Infantil ao Ensino Superior. É autor do livro Always Becoming, Never Arriving: Developing an Imagination for Teaching Christianly e está finalizando um novo livro sobre o uso da IA por educadores cristãos.

O que Celebrar na Escola Cristã? Reflexão sobre Datas Comemorativas

 

Em meio ao calendário escolar, um dos maiores dilemas enfrentados por escolas cristãs é decidir o que celebrar — e como celebrar. Em uma cultura marcada por datas tradicionais e expectativas familiares, muitas instituições acabam absorvendo festas que não necessariamente refletem os princípios cristãos. Isso é especialmente visível no meio do ano, quando celebrações como as festas juninas ou julinas dominam a agenda educacional. A escola cristã, no entanto, precisa responder com discernimento: toda escolha curricular — inclusive as comemorativas — deve glorificar a Deus, sustentar o aprendizado e formar discípulos. 

  1. O que a escola ensina quando pausa a agenda para comemorar?

Toda celebração carrega uma pedagogia. Ao pausar as atividades regulares para investir tempo, energia e recursos em um evento, a escola está afirmando: “Isso é importante demais para ser ignorado”. Por isso, antes de perguntar “é possível adaptar?”, a pergunta mais honesta e bíblica é: “Isso comunica Cristo, edifica a igreja, fortalece o conhecimento e forma caráter?” 

A escola cristã vive diante da face de Deus e tudo o que faz deve expressar reverência, sabedoria e propósito. “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus.” (1 Coríntios 10.31) 

Quando a escola celebra, ela está formando o imaginário dos alunos, estruturando o senso de tempo e ajudando-os a interpretar o mundo. Por isso, celebrações que comunicam virtudes, memória redentiva, marcos da história cristã ou eventos relevantes do ponto de vista pedagógico podem ser oportunidades riquíssimas de formação. Por exemplo, celebrar a Reforma Protestante com um projeto interativo, ou criar uma Semana da Criação, conectando o conhecimento científico ao relato bíblico, são formas de enriquecer a compreensão do aluno sobre Deus e o mundo. 

  1. Um banco de três pés: discernimento pedagógico com equilíbrio

Ao avaliar a inclusão de uma data comemorativa, a escola cristã pode se valer de um critério tríplice, comparável a um banco de três pés. Quando um desses “pés falta”, o assento se torna instável — e o resultado é um evento que compromete mais do que contribui. São eles: 

  • Teológico: Honra ao Senhor 
    O evento comunica os atributos de Deus, a redenção em Cristo e os princípios da fé cristã? Ele reforça o que a escola acredita sobre a soberania de Deus e o papel da educação no Reino? 
  • Acadêmico: Rigor e relevância 
    O projeto complementa o currículo e aprofunda o conteúdo estudado ou apenas interrompe a rotina? É possível integrar a comemoração ao plano de ensino com objetivos claros e mensuráveis? 
  • Formativo: Virtudes e identidade 
    Essa experiência contribui para o desenvolvimento espiritual, emocional e intelectual dos alunos? Estimula o senso de comunidade e o entendimento do tempo como dom de Deus? 

Uma boa celebração está firmada nesses três pilares. Um evento que é "bonito", mas teologicamente vazio ou desconectado do currículo, pode ser um desperdício de tempo e uma distorção de propósitos. 

  1. Quando a escola vive de eventos

É comum encontrar escolas cuja agenda pedagógica gira em torno de eventos. À primeira vista, isso parece estratégico: movimenta redes sociais, envolve as famílias, gera empolgação. Mas por trás pode haver cansaço, fragmentação do conteúdo, superficialidade e esgotamento da equipe. A escola começa a “viver de evento em evento”, deixando de lado o essencial: formar discípulos que pensem, amem e vivam para Cristo. 

A escola cristã precisa resistir à ideia de que todo mês deve haver uma nova atividade comemorativa. Em vez disso, pode estabelecer eventos fixos por segmento ou série. Por exemplo: o 2º ano celebra o "Dia da Criação", o 5º ano organiza uma Feira da Reforma, o 9º ano promove um Série Histórica sobre Cristãos que Transformaram o Mundo. Isso gera expectativa, organiza melhor o trabalho docente, permite aprofundar conteúdos e reduz a sobrecarga logística da coordenação pedagógica. 

  1. Atenção às festas de meio de ano

Não podemos ignorar que muitas escolas cristãs se veem pressionadas a adaptar as festas juninas ou julinas com novos nomes como "festa da colheita", "festa caipira" ou "festa da roça". A mudança de rótulo, contudo, não transforma o conteúdo. Ser uma escola cristã é assumir posicionamentos claros, não apenas estéticos. Se a motivação não for a glória de Deus e a formação bíblica dos alunos, não há coerência em manter o evento. 

É preciso perguntar: o tempo gasto com ensaios, decorações, figurinos e apresentações está sendo bem investido? Estamos formando alunos no conhecimento de Deus e nos conteúdos acadêmicos — ou distraindo-os com celebrações que, embora visualmente atrativas, não sustentam a missão da escola cristã? 

Por outro lado, se a escola cristã consegue organizar sua agenda de maneira intencional para incluir a "Festa da Colheita", por exemplo, que respeite o critério dos três pés — teológico, acadêmico e formativo —, isso se torna uma excelente oportunidade. Não apenas para envolver a comunidade escolar, mas para apresentar publicamente os diferenciais de um ensino centrado em Cristo, que integra conhecimento, virtude e adoração. Uma celebração com esse perfil pode se tornar um poderoso testemunho da identidade cristã da escola, revelando que é possível ensinar com propósito eterno também por meio da cultura escolar e das festas. 

  1. Celebrações que glorificam e ensinam

Celebrar não está errado. Muito pelo contrário: a Escritura está repleta de festas, memoriais e atos comunitários que celebravam a fidelidade de Deus, a provisão, o livramento e a redenção. O problema não está na festa, mas no foco da festa. Uma escola cristã pode e deve celebrar — mas com discernimento, propósito e reverência. Toda celebração deve ser um ato de adoração, um momento de aprofundamento intelectual e uma oportunidade de fortalecer a comunhão da comunidade escolar. Quando os três pés estão presentes — teologia, aprendizado e formação —, o resultado é um evento que edifica e alegra. 

Conclusão 

A agenda de uma escola cristã deve ser resultado de convicções e não de conveniências. As festas (eventos) não são neutras. Elas transmitem valores, constroem imaginário e formam identidade. Escolher com critério o que celebrar — e o que não celebrar — é uma das marcas de uma escola que entende sua vocação: ensinar com fidelidade à Escritura, rigor acadêmico e compromisso com o Reino de Deus. 

Que cada escola cristã tenha sabedoria para decidir com coragem, temor e alegria. E que, em cada data, projeto e evento, os alunos, professores e pais aprendam que o tempo, a cultura e a vida só fazem sentido quando Cristo é o centro.